Existe uma diferença fundamental entre os que se opõem ao neoliberalismo, e essa diferença curiosamente consiste, a grosso modo, em enxergar o outro, aquele que poderíamos chamar de o "próximo distante", como sendo parte do si mesmo . Não há nada de novo nesta reflexão, pois ela simplesmente retoma o que vem sendo pregado por algumas religiões há milênios, em um tempo em que sequer existiam o liberalismo real (o neoliberalismo) e o socialismo. Mas mesmo assim escrevo algumas linhas sobre ela.
A valorização do eu (ou do si) existe tanto por parte dos contrários às vertentes da ideologia (neo)liberal e anarco-capitalista como dos adeptos de alguma dessas duas vertentes. Não é incomum, em um mundo no qual grande parte dos países é dominada por governos que aplicam e continuam aplicando determinações da ideologia da exclusão e da satisfação do si mesmo, encontrarmos pessoas fortemente centradas em si, voltadas apenas para a satisfação de suas próprias necessidades básicas, e igualmente dos desejos de cuja satisfação possa prescindir sem que isso coloque em risco sua própria subsistência, ou as coloquem em condição subumana.
No que se refere à valorização do nós, há uma pequena mudança em relação a do si, e esta consiste em incluir o nós no si (no si mesmo). A fim de tentar deixar isso mais inteligível, imagine qualquer pessoa que, além de estar voltada para a satisfação de suas próprias necessidades, sejam elas essenciais ou não, manifesta-se e se empenha para essas mesmas necessidades sejam supridas a alguns poucos entes queridos com os quais mantém forte relação de afeto. Inclua nesse círculo restrito, igualmente, alguns poucos amigos(as) e perceberá a existência de um segundo ente: o nós fortemente associado ao si. Frise-se também que, às vezes, de tão forte a ligação de um ser com o outro (uma mãe em relação a seus filhos, por exemplo), o si confunde-se com o nós.
Ainda dentro deste nós fortemente associado ao si pode-se incluir aqueles casos em que grupos de pessoas se unem para a defesa de interesses em comum, os quais nos causam a impressão de um esforço por uma causa coletiva, mas que, em parte dos casos, na realidade trata-se de uma defesa voltada para seu próprio interesse, o que faz com que esse nós seja nada mais do que o si (o si mesmo) com aparência de um nós fortemente associado ao si.
Até aqui dá para dizer que tanto os defensores e propagadores das diversas vertentes liberais e anarco-capitalistas quanto os opositores dessas ideologias se enquadram na valorização do eu (ou do si mesmo) e do nós (ou do nós no si). Ou seja, há semelhança entre os defensores e opositores do neoliberalismo e anarco-capitalismo no que se refere à valorização e à busca da proteção e da satisfação do si, bem como do nós fortemente associado ao si, pois esse comportamento parece ser próprio de todo ser humano, mas é muito provavel que haja uma defesa intransigente dos primeiros na prevalência do si, e do nós no si no sentido individulista, próprio dessas ideologias, em relação ao próximo distante, embora pessoas que se dizem opositoras dessas ideologias também possam comportar-se tais quais seus adeptos.
Chega-se, finalmente, àquilo que se constitui na diferença fundamental existente entre os que se opõem ao (neo)liberalismo e ao anarcocapitalismo, e esta consiste em enxergar o chamado próximo distante como parte do si (do si mesmo). Este próximo distante nada mais é do que aquele (ou aquela) pelo qual não nutrimos nenhum tipo de afeto comparável ao que sentimos por nossos entes queridos e outros aos quais não estamos ligados por laços parentais. E esta diferença, a meu ver, caracteriza da melhor forma possível os opositores do neoliberalismo em comparação a si mesmos, e também em comparação aos que não se enquadram como sendo de esquerda mas se dizem opositores do (neo)liberalismo e anarcocapitalismo.