terça-feira, 17 de julho de 2007

A Diferença Fundamental

Existe uma  diferença fundamental entre os que se opõem ao neoliberalismo, e essa diferença curiosamente consiste, a grosso modo, em enxergar o outro, aquele que poderíamos chamar de o "próximo distante",  como sendo parte do si mesmo . Não há nada de novo nesta reflexão, pois ela simplesmente retoma o que vem sendo pregado por algumas religiões há milênios, em um tempo em que sequer existiam o liberalismo real (o neoliberalismo) e o socialismo. Mas mesmo assim escrevo algumas linhas sobre ela.

A valorização do eu (ou do si) existe tanto por parte dos contrários às vertentes da ideologia (neo)liberal e anarco-capitalista como dos adeptos de alguma dessas duas vertentes. Não é incomum, em um mundo no qual grande parte dos países é dominada por governos que aplicam e continuam aplicando determinações da ideologia da exclusão e da satisfação do si mesmo, encontrarmos pessoas fortemente centradas em si, voltadas apenas para a satisfação de suas próprias necessidades básicas, e igualmente dos desejos de cuja satisfação possa prescindir sem que isso coloque em risco sua própria subsistência, ou as coloquem em condição subumana.

No que se refere à valorização do nós, há uma pequena mudança em relação a do si, e esta consiste em incluir o nós no si (no si mesmo). A fim de tentar deixar isso mais inteligível, imagine qualquer pessoa que, além de estar voltada para a satisfação de suas próprias necessidades, sejam elas essenciais ou não, manifesta-se  e se empenha para essas mesmas necessidades sejam supridas a alguns poucos entes queridos com os quais mantém forte relação de afeto. Inclua nesse círculo restrito, igualmente, alguns poucos amigos(as) e perceberá a existência de um segundo ente: o nós fortemente associado ao si. Frise-se também que, às vezes, de tão forte a ligação de um ser com o outro (uma mãe em relação a seus filhos, por exemplo), o si confunde-se com o nós.

Ainda dentro deste nós fortemente associado ao si pode-se incluir aqueles casos em que grupos de pessoas se unem para a defesa de interesses em comum, os quais nos causam a impressão de um esforço por uma causa coletiva, mas que, em parte dos casos, na realidade trata-se de uma defesa voltada para seu próprio interesse, o que faz com que esse nós seja nada mais do que o si (o si mesmo) com aparência de um nós fortemente associado ao si.

Até aqui dá para dizer que tanto os defensores e propagadores das diversas vertentes liberais e anarco-capitalistas quanto os opositores dessas ideologias se enquadram na valorização do eu (ou do si mesmo) e do nós (ou do nós no si). Ou seja,  há semelhança entre os defensores e opositores do neoliberalismo e anarco-capitalismo no que se refere à valorização e à busca da proteção e da satisfação do si,  bem como do nós fortemente associado ao si, pois esse comportamento parece ser próprio de todo ser humano, mas é muito provavel que haja uma defesa intransigente dos primeiros na prevalência  do  si, e do nós no si no sentido individulista, próprio dessas ideologias, em relação ao próximo distante, embora pessoas que se dizem opositoras dessas ideologias também possam comportar-se tais quais seus adeptos.

Chega-se, finalmente, àquilo que se constitui na diferença fundamental existente entre os que se opõem ao (neo)liberalismo e ao anarcocapitalismo, e esta consiste em enxergar o chamado próximo distante como parte do si (do si mesmo). Este próximo distante nada mais é do que aquele (ou aquela) pelo qual não nutrimos nenhum tipo de afeto comparável ao que sentimos por nossos entes queridos e outros aos quais não estamos ligados por laços parentais. E esta diferença, a meu ver, caracteriza da melhor forma possível os opositores do neoliberalismo em comparação a si mesmos, e também em comparação aos que não se enquadram como sendo de esquerda mas se dizem opositores do (neo)liberalismo e anarcocapitalismo.


segunda-feira, 16 de julho de 2007

Aos Educadores e Educadoras

Sobre a conscientização dos alunos no que tange ao ideário neoliberal, creio que se trata de uma tarefa bastante difícil, pois existem conceitos dificílimos de serem compreendidos por alunos com a média de idade entre 13 e 17 anos (imaginando que esta seja a faixa etária dominante entre os que cursam o 2º grau, mas de forma alguma excluindo os que têm idade inferior ou superior às idades citadas), por exemplo. Contudo, creio que existam formas de associação através das quais possamos fazer com que eles saibam diferir o ideário neoliberal dos outros ideários (o comunista, o socialista, os verdadeiros ideários social-democrata e trabalhista, o nacionalista com componentes keynesianos, o anarquista de esquerda e outros).

O importante é fazermos isso da forma mais honesta possível, expondo os fatos históricos reconhecidos por pessoas das mais diversas ideologias, bem como as interpretações desses fatos conforme cada ideologia, vigiando-nos sempre para que façamos isso sem maniqueísmo, a fim de que, no futuro, se alguns deles se transformarem em Arnaldos Jabores, Diogos Manardis, Olavos de Carvalhos e Reinaldos Azevedos (infelizmente essa é uma possibilidade significativa), não haja base, por parte deles e de outros que tenham assistido nossas aulas, para sermos acusados de maniqueístas.

A tentativa de "tradução" de diversas linguagens técnicas existentes em diversos campos do conhecimento (da Economia, da Política, da História, da Geografia, da Filosofia e outras) para uma linguagem compreendida pelos jovens, a fim de que eles apreendam o que é neoliberalismo (e outros vocábulos e termos associados a esta ideologia), passou a ser um de meus grandes sonhos, mas este dificilmente será concretizado.

Mesmo assim, considero fundamental fortalecer as bases teóricas dos que imaginam se opor ao neoliberalismo, a fim de que, se algum destes deixarem de se opor a esta ideologia, o façam com plena consciência dessa escolha, sabendo que estão deixando a ideologia na qual o outro, o chamado "próximo distante" é um ser humano como nós, é parte de nós, e indo para uma outra na qual outros só existe o si (o si próprio) e os poucos com os quais há forte ligação afetiva. O outro, o chamado "próximo distante", ou não existe ou existe tão-somente como um veículo para que objetivos relacionados à satisfação do si mesmos sejam alcançados.
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domingo, 1 de julho de 2007

O Gasto do Governo com Juros

Em recente entrevista, o vice-presidente da República, José Alencar, disse que o Brasil "joga dinheiro pela janela" ao praticar juros tão altos. A afirmação foi feita na abertura do seminário Ethanol Summit 2007, em São Paulo. Segundo Alencar, apenas no primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil pagou R$ 600 bilhões em juros. "Se tivéssemos reduzido a taxa nominal à metade da praticada, haveria a economia de R$ 300 bilhões, que poderiam ser usados para saúde, educação e infra-estrutura, uma vez que temos um Orçamento muito enxuto que não contempla todas as necessidades."

É verdade que existem outros itens e "ralos" dos gastos do orçamento do governo federal que também poderiam ser focados (pagamento de funcionários fantasmas, corrupção, fraudes nas aposentadorias, altos salários de alguns cargos da elite do funcionalismo que poderiam ser adequados à realidade e outros a serem melhor investigados), mas seguramente os gastos com o pagamento dos juros e do principal da chamada dívida pública interna (contida nos diversos títulos públicos ofertados a diversos investidores do mercado financeiro) consta entre os maiores. Contudo, quando a revista Veja e a rede Globo abordam a problemática dos gastos públicos, só focam (ou focam fundamentalmente) os gastos do governo com a previdência e assistência social, e mesma coisa quanto ao funcionalismo (aqui eles o fazem no sentido geral, e não de forma localizada nos altos cargos e nos cargos de comissão bem remunerados).

E ao focarem nos gastos descritos, as forças liberal-conservadoras e reacionárias lançam mão de diversos sofismas, entre os quais consta aquele segundo o qual é necessário que se corte fortemente gastos nas áreas citadas para que o Estado tenha recursos disponíveis a serem destinados à chamada infra-estrutura (estradas, portos, aeroportos, ferrovias, hidrelétricas, termelétricas, redes de telecomunicação e outras), a fim de que, com menos impostos incidindo sobre os mais ricos deste país e sobre seus empreendimentos e aplicações financeiras, haja mais investimentos nos setores ditos produtivos e, como resultado disso, a Terra Brasilis passe a gerar os tão sonhados empregos ansiados por milhões de marginalizados pelo sistema.

Por trás desse discurso de corte de gastos em áreas essenciais para a manutenção do emprego e da subsistência de amplos estratos sociais do País - e aqui de forma alguma incluo os que de fato estão na condição de privilegiados, os quais certamente não são muitos dos que são apontados por porta-vozes da elite econômica - , existe uma forte determinação, por parte da elite econômica nacional - associada à transnacional - de transformar o Estado brasileiro em um Estado mínimo, focado essencialmente na defesa da propriedade, dos contratos e do subsídio a suas atividades.

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O Cliente e o Inseto Asqueroso

Faz algum tempo criei a expressão "o cliente em primeiro lugar, e o inseto asqueroso do ser humano, em último", pois todo cliente é um ser humano (pelo menos do ponto de vista da classificação científica das espécies), mas nem todo ser humano é classificado com sendo um cliente, pois este consiste em um estado transitório do ser relacionado ao seu poder de adquirir bens e contratar serviços, e não a algo que lhe é imanente.

Em um mundo dominado pela ideologia da exclusão e do endeusamento do si mesmo (a ideologia capitalista, principalmente a de vertente neoliberal), existem apenas as primeiras pessoas do singular (eu) e do plural (nós), sendo que, nesta última, não estão incluídas as pessoas com as quais não estamos fortemente ligados afetivamente 1) ver obs. ao final do texto. Qualquer pensador que observe o sistema dominante, a não ser que esteja inebriado e corrompido pela ideologia mencionada, muito provavelmente chegará à conclusão de que, sob o domínio da ideologia capitalista neoliberal, são marginalizados os que não estão clientes.

Quantos de nós não recebemos ligações telefônicas de bancos, instituições financeiras e de cartão de crédito nas quais o(a) operador(a) de telemarketing, de posse de nossos dados cadastrais e crentes em que sejamos potenciais clientes, exalta a nossa credibilidade junto à empresa e ao mercado para, pouco depois, nos oferecer a abertura de uma conta bancária associada a um sistema de cartão de crédito? Quantos de nós não fomos abordados, quase puxados pelo braço, por prestadores de serviço dessas mesmas instituições nos propondo a feitura de um cadastro para posterior concessão de um empréstimo sem que sequer precisásemos dele? Esses são apenas dois exemplos, coincidentemente ligados à atuação de um dos ramos do capitalismo (o financeiro), de uma caça frenética a seres humanos que estão (frise-se) clientes. Esclareço que de modo algum culpo os que estão a serviço de empresas e instituições financeiras executando esse trabalho, muitos dos quais são vítimas do sistema e não seus cúmplices.

Observa-se, tendo por base o exemplo dado e muitos outros que nos veem à mente, que o sistema capitalista em sua vertente neoliberal endeusa o ente conhecido por cliente, no entanto é perceptível o profundo desprezo e/ou indiferença por aqueles que estão na condição de dependentes do trabalho para a subsistência. Constata-se isso examinando-se o tipo de vínculo empregatício, a insalubridade da função e o salário de muitos desses prestadores de serviço de áreas ligadas a vendas e call-center (não os chamo de funcionários porque sei que a grande maioria, quando não todos, está registrada por empresas prestadoras de serviço, e não pelas grandes empresas para os quais eles trabalham) mantém com a grande empresa ou banco que os contrata.


Diante do exposto, percebe-se que no sistema dominante (capitalista e de vertente neoliberal) o ser humano somente possui algum valor quando estiver propenso a adquirir algum produto ou serviço, e de forma diretamente proporcional ao sua capacidade de consumo, ou possuir características de que tem condições de adquiri-los, mas o que depende do trabalho para a subsistência, um inseto asqueroso a ser descartado pelo detentor de capital em sua busca obsessiva por custos menores e lucros maiores.


Observações:
1) Leia meu texto intitulado “A Diferença Fundamental” para melhor compreender esta minha reflexão.