domingo, 14 de outubro de 2007

Onde se Refugiarão Os Excluídos?

Quando soube que a Biblioteca Mário de Andrade, situada no centro da cidade de São Paulo, havia sido fechada por um período de 18 meses, e que ela mudará de perfil passando a ser uma biblioteca voltada para o atendimento de pesquisadores (estes são a minoria) e de empréstimo de livros nos moldes de uma biblioteca circulante, logo me veio à mente a figura dos moradores e moradoras de rua, e também a dos milhares de desempregados vindos das periferias e de lugares empobrecidos do centro que não se enquadram na categoria de pesquisadores, e que não podem emprestar livros por não possuirem um endereço (este é o caso dos moradores e moradoras de rua). Lembrei-me também daqueles da classe média empobrecida residente em algumas partes do centro, que estão sem emprego e dependentes de familiares, que para bibliotecas e centros de acesso gratuitos à internet se dirigem. Pensei comigo: para quais e em quais lugares públicos se dirigirão e se refugiarão esses grupos?

Durante muito tempo de minha vida estive na condição do último grupo citado, e sei da importância de um lugar público como uma biblioteca para a leitura, desenvolvimento intelectual e (por que não?), espaço para descanso daqueles que vão ao centro distribuir currículos em agências de emprego, em lojas e em empresas. Mais difícil é para os dois grupos citados em primeiro e segundo lugar no parágrafo anterior. O segundo grupo citado passa pela privação de não ter dinheiro para pagar o transporte de ida ao centro e retorno a suas casas, tampouco para o almoço ou mesmo lanche em algum bar ou restaurante do centro. Já quanto ao primeiro grupo citado, o dos que fazem da rua a sua casa, tenho informações de que também freqüentam a referida biblioteca para leitura e, provavelmente, nas poucas horas que permanecem por lá têm a oportunidade de esquecer sua triste condição de subvida. Isso quando obtêm a permissão para adentrá-la, pois muitos desses sequer possuem documentos (pode-se dizer que perderam suas identidades em dois sentidos: no da perda do documento que leva este nome e, igualmente, o do ponto de vista psíquico), e sei que lá eles são exigidos como condição para a entrada.

Pior ainda é saber que a Biblioteca Mário de Andrade consiste também em um dos pouquíssimos lugares públicos nos quais os que vão ao centro podem usar o banheiro sem o constrangimento de ter de pedir, muitas vezes cabisbaixo e como que pedindo uma esmola, para que algum dono, gerente ou funcionário de estabelecimentos comerciais os autorizem a usar os sanitários de uso privativo deles próprios e de seus clientes. Havia, inclusive, um shopping center, nas imediações, em que o uso dos sanitários era (talvez ainda seja) cobrado, diferentemente de muitos outros shoppings situados em regiões nobres. Estes "detalhe", envolvendo uma necessidade fisiológica essencial do ser humano, seria cômico se não fosse trágico.

O fechamento temporário e uma possível elitização dos freqüentadores da biblioteca em questão, além de outros fatos ocorridos no centro da cidade de São Paulo, tais como uma certa campanha por sua "revitalização", tem me causado bastante tristeza, ao contrário do sentimento misto de alívio e alegria por parte de alguns cidadãos de classes privilegiadas, os quais desejam o referido espaço "limpo" e "revitalizado". Pois a impressão que tenho é a de que esta limpeza e revitalização consistirá na perseguição e na expulsão de grupos que moram nas calçadas, nas praças e sob os viadutos, ou dos que vão ao centro em busca de meios de subsistência, trabalho ou emprego.