quinta-feira, 27 de março de 2008

A Inutilização do Ser

"Inútil, a gente somos inútil", essa é a canção que me vem à mente quando olho o mundo e percebo o sistema excludente e desumano quase que completamente intacto em suas estruturas, apesar do rastro de bilhões de pessoas sedentas – literalmente, de água, mas também de justiça -, famintas e marginalizadas.

Automatizam-se os meios de produção e de prestação de serviços de modo a substituir pessoas que dependem do trabalho para sobreviver. Softwares – a grosso modo, sistemas operacionais, aplicativos e programas de informática - e equipamentos modernos substituem funcionários administrativos, operacionais e de produção. Introduz-se o downsizing, o programa de qualidade total, o just-in-time integrado ao Kan Ban e outros sistemas ditos modernos e essenciais à sobrevivência das corporações (as empresas) dentro e fora de seus países de origem, mas por vezes destruidores de postos de trabalho. Amplia-se cada vez mais a mecanização da produção agrícola em grandes e médias propriedades de terra, dispensando, com isso, o trabalho dos que tiravam seu precário sustento labutando em terras alheias.

  
Nas mais diversas corporações (empresas) e instituições financeiras, nacionais e transnacionais, radicalizam-se os processos de terceirização e contratação por tempo determinado, sem vínculo empregatício. E como se não todo o sofrimento aos que dependem do trabalho para subsistir não bastasse, grassam as discriminações nos processos de recrutamento e seleção de candidatos(as) a emprego e, consequentemente, a exclusão dos discriminados pelos mais diversos motivos: idade, gênero, aparência, etnia, cor, classe social, pelo quantidade de tempo em que se está desempregado, pela quantidade de tempo em que ficou nos últimos empregos e muitos ... muitos outros.

Sofisticam-se sistemas financeiros de modo a enriquecer pouquíssimas pessoas a partir de expectativas de crescimento dos lucros e de aumento do capital das empresas das quais possuem ações, além do enriquecimento por meio de ataques especulativos a moedas tendentes à desvalorização, da especulação com comercial papers ou da venda de ações de empresas cuja contabilidade foi fraudada para demonstrar lucro e expectativas de lucro inexistentes. E todo esse enriquecimento de pouquíssimas pessoas se dá sem que haja investimento em atividades ligadas à produção de bens e de serviços no mundo real, como se fosse uma máquina de gerar dinheiro a partir do nada que se traduz na forma de expectativa.

Neste novo mundo em que detentores do capital minimizam cada vez mais seus custos, e aumentam exponencialmente seus lucros, existem apenas quatro entes: o empreendedor,
o cliente, o funcionário altamente especializado e o capital humano dotado de qualidades ímpares para o sistema do capital. Somado a estes, impõe-se o ambiente político, econômico e institucional da elite econômica que controla o Estado: a coerção para que os contratos firmados sejam rigorosamente cumpridos, o Estado mínimo para as áreas de proteção à vida e à dignidade da pessoa humana, e Estado grande o suficiente para as ligadas à de segurança e de proteção à propriedade privada. O resto ... que resto? Existe algum resto? Se não se incluem em qualquer dos quatro entes citados, simplesmente não existem. E se insistem em existir e se opor a esse sistema devem ser anulados ou aniquilados.        

Sob o sistema descrito, o ser humano em si, desvinculado do estar e/ou de ter potencialidade para estar cliente, empreendedor, funcionário altamente especializado ou  capital humano dotado de qualidades ímpares para o sistema do capital (um artista, um jovem cientista promissor, um atleta ou jogador consagrado, só para citar alguns exemplos) é como um lixo orgânico putrefato e inútil (ou, se preferirem, lixo ambulante não-reciclável, conforme expressão criada por ... terá sido eu o primeiro a usar essa expressão em espaços de discussões cibernéticas?
).

A maioria de nós pertence aos "a gente somos inútil", e isso se dá em razão da probabilidade significativa de passarmos da condição de prestadores de serviço, ou de empregados com remuneração suficiente para a própria subsistência e de poucos entes queridos, à de desempregados ou subempregados crônicos com remuneração insuficiente ou sem remuneração nenhuma - em ambas as condições, não são poucos os que cruzam a fronteira da vida minimamente digna em direção à sub-vida e à morte.





Neste meu texto já exite um embrião do que seria exposto melhor no texto publicado neste mesmo espaço e intitulado "O capital, o cliente, o lixo orgânico e outros entes", publicado em 27.11.2011 . (Data da inserção deste comentário: 27.11.2011)



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5 comentários:

Ana Raquel Fernandes disse...

Francesco, foi com maestria que, ainda no início desse artigo você discorreu sobre a corrente invalidação do Ser Humano e supravalorização do Cliente, prática desse sistema desumano intitulado capitalismo.Como educadora que sou, aproveito para alertar para essa mesma maldita tendência neoliberal dentro do campo educacional,essa corrosiva e perniciosa praga, que insiste em aplicar os mesmos princípios e métodos administrativos vigentes nas empresas capitalistas às instituições educativas, de tal forma que ainda e mais uma vez o que é visado é o lucro, e toda e qualquer ação o terá como objetivo. Daí a explicação para nosso fracasso educacional. Transformaram a escola, esse ambiente que deveria priorizar o Ser Humano em uma empresa. Isso é lastimável!
A fim de atingir seus objetivos, normalmente atrelados a padrões e patamares pré-fixados pelos EUA, situações são forjadas, manipuladas, e sistemas de avaliação como a afamada Prova Brasil não passam de obrigatoriedade servil, uma vez que não visam a real avaliação da situação de nossos alunos, mas apenas anseiam por mostrar resultados à Matriz.
É uma pena, mas o neoliberalismo parece não poupar nenhuma área sequer de nossas vidas. E quando se trata de uma área elementar como é a da Educação, a situação se torna ainda mais preocupante.
Sem mais, Parabéns pelo conteúdo do blog. E fica a sugestão para que disserte sobre os reflexos do neoliberalismo na Educação.

Ana Raquel.

Francesco De La Cruz disse...

Ana Raquel, agradeço-lhe muito pelo apoio. Sobre a questão que você coloca, a de que escolas e professores estão sendo pressionados a funcionarem tal qual empresas e empregados da chamada iniciativa privada, digo-lhe que venho mantendo contato com professores e professoras, amigos meus, e que o quadro que eles me descrevem, para a nossa tristeza, é esse mesmo que você denuncia.

A intenção dos defensores da ideologia da exclusão e da destruição do ecossistema é essa mesma, transformar escolas em empresas; e aos que não forem considerados eficientes por avaliações de desempenho subjetivas, os adeptos da ideologia referida no início defendem que sejam demitidos.

No que diz respeito a sua sugestão para que eu escreva sobre este tema, farei o que estiver ao meu alcance após pesquisar melhor sobre o tema. Desde já adianto-lhe uma denúncia que gostaria de fazer neste espaço: alguns professores, mesmo doentes, estão tendo que ministrar aulas. Esse é um dos relatos que tenho ouvido ou lido.

Grande abraço e, de novo, muito obrigado por seu apoio.

Pedro Ayres disse...

Caro Francesco
Embora tenha ficado envaidecido por encontrar o meu Blog "Crônicas e Críticas da América Latina" em seus enlaces, gostaria de lhe avisar que o meu sobrenome é Ayres, não Lugo.
No mais, muito grato pela gentileza e atenção

AGRY disse...

A massificação da cultura, como sabe, é uma questão nuclear dos regimes e dos cidadãos progressistas.
O elitismo é , por seu turno, a postura incontornável da burguesia ignorante.
Percorri e gostei do seu blog .

Fernando disse...

Interessante, realmente, não há mentiras ali, mas os softwares com alguns equipamentos desempenham várias funções que um ser - humano jamais será capaz de desempenhar; sem falar que seus cálculos são mais precisos, seu trabalho mais rápido e eficaz, isto dentre outras qualidades.

Não concordo muito com o fato de nos tornarmos um nada, na verdade, nós sempre iremos nos encaixar em algum dos três entes, afinal, não importa como, sempre seremos cliente, ao menos.

Quanto à rigidez do Estado, ignorando a vida, sou favorável, pois aí teremos que analisar diversas coisas, se não fosse pela exigência o que seria de tudo o que há? Como seriam as coisas? Quais metas seriam alcançadas? É, seria uma bagunça...

Mas há, ainda, uma válvula de escape para todos nós, somos brasileiros, nós damos um jeitinho para tudo. ;)