domingo, 25 de maio de 2008

Auschwitz sem Cercas

Estão livres, mas estão aprisionados.

Estão livres, mas não para se alimentarem adequadamente quando estiverem com fome.

Estão livres, mas correm risco eminente de constarem entre as vítimas de todo tipo de violência, e de serem assassinados, pois não possuem a moeda dos incluídos para comprar, financiar ou alugar uma habitação digna na qual se sintam (e estejam de fato) protegidos.

Estão livres, mas não são nem serão atendidos por médicos muito bons em igualmente muito bons hospitais. Estes são privilégios dos incluídos no sistema que exclui aos montes.

Estão livres, mas somente terão água tratada para beber e hieginizarem a si mesmos e suas residências se puderem pagar por esse serviço e pelo de coleta de esgotos, ambos privatizados sob o sistema neoliberal. Se não o puderem, estarão aprisionados em sua própria condição sub-humana, e serão como moradores de rua entre algumas paredes e uma cobertura.

Estão livres, mas não terão educação na quantidade e qualidade necessárias para uma melhor compreensão do mundo, nem para que esta os transforme em "capital humano", pois esta condição será privilégio de poucos sob o sistema cujas características mais marcantes são a marginalização e a inutilização da maioria.

Estão livres, mas não para viver, pois para viver é necessário pagar, e para pagar é necessário ter renda, e para ter renda é necessário estar incluído, e para estar incluído é necessário ser parte da elite, e para fazer parte desta é necessário estar e/ou ter potencialidade para estar cliente, empreendedor ou funcionário altamente especializado (1).

Vêm a minha imaginação os rostos arrasados e os corpos esquálidos de judeus, ciganos, comunistas, socialistas, deficientes mentais, homossexuais e tantos outros, encarcerados e assassinados nos campos de extermínio nazistas, e os comparo aos rostos dos miseráveis das mais diversas cidades brasileiras (entre os quais constam os moradores e moradoras de rua), os quais estão livres, mas, ao mesmo tempo, estão aprisionados. Pois não há liberdade em um sistema onde os seres humanos não são livres para suprir-se do necessário para sua própria subsistência e dignidade.

2 comentários:

Anônimo disse...

Estão livres tambem para irem para cuba, onde estas atrocidades descritas não ocorrem, lá é o paraíso para estes seres que não se enquadram no sistema, lá eles podem atingir a plenitude de suas existencias...

Francesco De La Cruz disse...

"Estão livres tambem para irem para cuba, onde estas atrocidades descritas não ocorrem, lá é o paraíso para estes seres que não se enquadram no sistema, lá eles podem atingir a plenitude de suas existencias..." (comentário do "anônimo")

Sr. Anônimo, é próprio de mentes totalitárias fasciliberais associar todo e qualquer tipo de condenação ao neoliberalismo a regimes criminalizados pelos veículos de comunicação mergulhados até o talo na ideologia neoliberal. Sua contestação à reflexão contida no texto sequer raspou a superfície do que deveria ser uma contra-argumentação à mesma. Tente outra.