sábado, 7 de abril de 2012

Desindustrialização e mundialização do capital

Nos muito bons artigos de Paulo Kliass, Gilberto Maringoni e de Wagner Gomes,  intitulados, respectivamente, "Desoneração e Desindustrialização", "Enxugando gelo para não tocar no essencial", e "Pacote não barra desindustrialização" para os quais coloquei os links ao final de meu texto, tomamos consciência do risco real não apenas de desindustrialização que corremos, apesar das medidas tomadas pelo governo, mas também de aumento do chamado "deficit orçamentário" do regime geral de previdência social, e de maior precarização nas relações entre os que detêm o capital e os que dependem do trabalho para viver dignamente.

Os governos de Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Roussef persistiram aplicando uma política econômica vinda da gestão anterior, de Fernando Henrique Cardoso, na qual a moeda nacional é valorizada perante o dólar e outras moedas ditas fortes através da atração desses recursos mediante uma taxa de juros altíssima, usada para remunerar títulos públicos, e de outras aplicações financeiras rentáveis e pouco tributadas, e também através de contratos de concessão generosos de serviços estratégicos e essenciais antes realizados por empresas majoritariamente de capital estatal e nacional, e de igual forma a possibilidade de recorrer a empréstimos, a juros subsidiados, de um dos principais bancos estatais e federais de fomento, o BNDES, para a realização dos investimentos necessários a melhoria e ampliação dos referidos serviços.

Todas essas medidas econômicas contribuíram não apenas para a valorização da moeda nacional perante as outras moedas mais fortes, mas também para o aumento dos lucros e dividendos de diversas corporações, bancos e fundos de investimentos transnacionais.

Do mesmo modo, essa política econômica contribuiu para o aumento dos lucros dos que exportam para o Brasil  produtos semi-manufaturados e manufaturados e que exploram seus trabalhadores ainda mais do que muitos países receptores de seus produtos, e lucram também com investimentos nos setores produtivos dos países receptores que em um primeiro momento são até bons para o país, dependendo da quantidade, qualidade e relativa estabilidade do emprego que oferecem aos trabalhadores brasileiros, e de igual modo devido às técnicas e tecnologias empregadas na produção de produtos e serviços que signifiquem maior produtividade e cuidado com o ecossistema, as quais poderão até ser copiadas pelas indústrias brasileiras.

No entanto, todo esse investimento cobrará obviamente seu retorno na forma de transferência de lucros e dividendos para seus investidores ou matrizes situados no exterior, podendo reduzir significativa e perigosamente as reservas em moeda estrangeira do país, e dar margem às manobras sabotadoras de "investidores" capazes de arruinar a vida econômica e a vida de milhões de pessoas em um país. Sabe-se, também, que muitas das empresas transnacionais que para cá trouxeram seus investimentos diretos utilizaram-se amplamente da terceirização (leia-se precarização) de diversos serviços e processos de produção no Brasil, aumentando ainda mais seus lucros, e pouca ou nenhuma tecnologia foi trazida por tais empresas e absorvida pela economia nacional.

O que compensou, até o momento, a saída de moeda estrangeira do país foi principalmente a exportação de minerais metálicos (ferro, alumínio, chumbo e outros), soja e farelo de soja, café em grãos, carne bovina, suína e de frango, petróleo bruto e outros produtos primários que geram poucos e localizados empregos, de baixo valor agregado, e que dificilmente contribuirão para um processo de crescimento econômico sustentável e com bons empregos em termos quantitativos e qualitativos para a maior parte dos que dependem do trabalho para subsistir dignamente.

Tendo em vista que a maior parte dos países do mundo está inserida de forma subordinada à mundialização (ou, se preferir, globalização) do sistema financeiro e do comércio exterior, e que estes estão firmemente protegidos por instituições tais quais o FMI, o Banco Mundial e a Organização Mundial de Comércio, entre outras instituições a serviço do capitalismo neoliberal e de corporações transnacionais muito poderosas, e de que esta mundialização não objetiva o crescimento econômico e desenvolvimento de todos de forma a beneficiar fundamentalmente os mais pobres e a classe média frágil, constitui-se um desafio monstruoso libertar-se desses sistemas sem correr o risco de se tornar um país asfixiado por boicotes econômicos e sabotagens feitas por elites econômicas "nacionais" e seus veículos de comunicação que culminam em golpe de Estado.

O país que ousa libertar-se desse sistema capitalista neoliberal, portanto, não corre o risco apenas não ter como suprir-se de matérias primas, energia, tecnologia e recursos financeiros vindos de outros países, tendo que fazer o possível para suprir-se de tais itens junto a alguns possíveis, poucos e igualmente frágeis países aliados, mas também o de estar preparado para uma série de ações de sabotagem vindos dos países que abrigam as matrizes das poderosas empresas, bancos e investidores transnacionais, e também de sua própria elite econômica antissocial.



Aos poucos que visitam este blogue e acessam os textos que recomendo coloco os links para os textos de Paulo Kliass, Gilberto Marangoni e Wagner Gomes na íntegra, ou, se preferirem, digitem em algum sistema de busca as palavras-chave dos próprios títulos dos artigos seguidos dos nomes de seus autores e acessem os textos através desse meio.

1) Desoneração e Desindustrialização - autor: Paulo Kliass

2) Enxugando gelo para não tocar no essencial - autor: Gilberto Maringoni

3) Pacote não barra desindustrialização - autor: Wagner Gomes




Textos de apoio para melhor compreender alguns vocábulos e termos utilizados

1) Os minerais são recursos da natureza (para saber mais sobre as "commodities")

2) O conceito de valor agregado - por Renata Megumi Kimura (leia a partir da pág. 11)



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